Canela com café.

Entro na livraria, sinto o aroma altamente familiar de café. Peço meu cappuccino. A moça atrás do balcão escreve meu nome na comanda - e para a minha surpresa, o escreve corretamente. Hoje é uma típica terça-feira, com um sol vibrante pincelando o céu azul, sem nenhuma nuvem. Apesar dos recentes acontecimentos, acordei bem. Não lembro do que sonhei. Daqui a pouco terei que deixar o santuário dos livros - que acolhe-me tão bem - e seguir com o dia. Amanhã faltará uma semana para mais uma primavera. O relógio não pára. (...)

A música solta suas notas e tons no ar. Hoje ouvi alguém, com mais experiência que eu, aconselhando-me sabiamente a ficar longe de certas complicações. A criar uma 'blindagem' para permanecer fora disso. Também escutei que várias pessoas dirão inúmeras críticas. Dizendo que sou insensível, até mesmo indiferente. Sorri ironicamente e respondi 'Dirão?'. E recebi um riso de como quem acabou de compartilhar um segredo, seguido da pergunta retórica 'Já dizem, não é?'. E eu continuo atrás da minha blindagem. Continuo me escondendo. Continuo não escutando quase ninguém. Seja isso bom ou ruim.

U2 @ Sometimes You Can't Make It On Your Own.

Password B306.

Pássaros cantam do lado de fora da janela. Aquele costumeiro sol da manhã - que tanto adoro - entra pelas frestas da persiana. Levanto. Preparo meu café. Preparo minhas torradas devidamente amanteigadas. Abro as janelas, sinto o sol acariciando meu rosto, delicadamente. Sento-me no parapeito, observo a rua, já movimentada, andares abaixo. Noto uma mulher sentada em um banco, no outro lado da rua, com um bebê no colo. Imagino os sorrisos de ambas criaturas. Sinto de longe a aurea leve e feliz que envolve as mesmas. Pego-me em profundo devaneios, de um futuro - ainda distante. Questiono-me se um dia serei merecedora de tal felicidade. Se sequer terei preparação para recebê-la. Sem notar, vejo um homem se aproximando da mulher. Carrega algo em sua mão (Seria um sorvete?). Ele se senta ao lado dela e leva-lhe o que acho ser uma colher à boca (Sim, sorvete). Tenho a impressão - ou desejo - que estejam rindo. Um som interrompe bruscamente a minha observação. O notebook ao fundo da sala volta a chamar a minha atenção com o som de um novo email. Quando olho, para a minha grande surpresa, não é um anúncio ou algum vírus. Um familiar remetente. Uma familiar escrita. "Amor?" Uma audácia desconhecida até então. Meus pensamentos adormecidos envolvem-me em um manto de sentimentos que não me pertencem mais. Entre um pensamento e outro consigo ler: "Desculpe-me, An.". Não entendo o que mudou para tal email ser escrito. Na realidade, não entendo nada. Termino de ler. Paro pra ouvir a minha alma questionando: "Pra quê?". Concordo com ela. Mas por quê Mark parou de pensar o mesmo que nós duas? Volto ao parapeito da janela, continuar aonde parei. Espanto-me ao perceber que não há mais casal, não há mais bebê - e não há mais sorvete. Simultaneamente tenho um estalo. Volto para o email, responder, novo email: Annie envia. "Pra quê?". Sua mensagem foi enviada com sucesso. (Meu café termina de esfriar. Minhas torradas estão moles, frias.)

Abro os olhos. Pássaros cantam do lado de fora da janela. Aquele costumeiro sol da manhã...

Annie.

Carla Bruni @ Quelqu'un m'a dit.

Unknown Caller.

O vento balança a cortina branca do meu quarto, ela voa. O vento pára. A cortina branca repousa suavemente, como se nunca tivesse alçado voo anteriormente. Meus pensamentos, ao seu contrário, permanecem intactamente fervilhantes. Embora os meses passem, as estações mudem e as matérias no pré-vestibular evoluam, os pensamentos estão imutáveis. Sobre os sentimentos, não ouso proferir o mesmo. A cada capítulo encerrado nasce uma nova pessoa aqui dentro. Acho que o nome disso seria experiência - ou não. Embora eu não consiga ter tamanha hipocrisia para ignorar todos os fatos. Ao mesmo tempo, existe uma certa obrigatoriedade em agir como se nada me afetasse. Triste ilusão - risos. É evidente que em alguns - muitos - momentos pego-me com aquele costumeiro buraco no peito. Um misto de saudade, preocupação, tristeza, amor... uma falta que chega a ser peculiar de tão inexorável. Entretanto, também há aspectos positivos. Como a liberdade. Nada como uma sensação de irresponsabilidade, de não ter correntes com nada - e nem ninguém. Sem explicações, obrigações. Discussões, ciúmes. Nada disso me pertence mais, feliz ou infelizmente (ou os dois, simultâneamente).
O irônico 'Por que?' continua pairando em meus pensamentos ocasionalmente. Mesmo que a verdade seja a que programei a minha mente desde o início para esse tipo de situação, nunca controlamos nossas reações e emoções. Nesse ponto lembro do que todos sempre me disseram, dizem e sempre dirão: Incrível é o tamanho da minha força. A audácia de me fazer ter sentimentos ruins não penetrou em mim. Não senti desespero, raiva, inconformação, dor ou qualquer outro derivado destes. Me entregar seria um presente. Permaneci de pé, inabalável para toda e qualquer circunstância. Continuo sendo impertinente para com a minha vida, tendo assim sempre um sorriso no rosto. Me impondo pro mundo e seguindo em frente. Não são meia dúzia de problemas e/ou pessoas que me derrubarão. Não possuo a ilusão de que o pior já passou. Terei um tempo de folga sim, tempo em que muitos fatos podem - e vão - acontecer. Mas ainda há muita vida pela frente, muitos capítulos à serem escritos. Lidos. Encerrados. E revisados, é claro.
Apesar d'eu ser uma pessoa extremamente intensa, típica Ariana, de não fazer parte de padrões ou rótulos... tenho orgulho disso tudo. Várias coisas banais me irritam profundamente e várias outras proporcionam-me felicidade. Sou psicótica, sou difícil. Porém, me aceito. Tenho meus milhares de erros. Quando confio em alguém, confio demais. Quando gosto, gosto demais. E quando me machucam, dói mais do que deveria doer. Mas por outro longo tempo, me fecharei além do necessário. Não acreditarei mais nas pessoas e só dependerei de mim mesma. Como sabiamente dizia o grande Renato Russo: "Tem gente que está do mesmo lado que você, mas deveria estar do lado de lá. Tem gente que machuca os outros, tem gente que não sabe amar. Tem gente enganando a gente, veja nossa vida como está. Mas eu sei que um dia a gente aprende. Se você quiser alguém em quem confiar, confie em si mesmo. Quem acredita sempre alcança." (...)

Após meses digo isso tudo que queria pôr pra fora desde o início. Somente outro registro de mais um capítulo encerrado - e de outro iniciado. Semana que vem completo minhas 19 primaveras. Num dia que tem tudo pra ser magnífico. Longe dos meus problemas. Ironicamente perto da causa de alguns deles. Mas a influência disso sobre mim teve o seu fim. Como todo carnaval. Como toda primavera. Como tudo.

Florence + The Machine @ Heavy In Your Arms.

Hello, I'm in Delaware.

Fim de tarde. Dia banal, terça, quarta-feira. Eu estava me sentindo muito triste. Você pode dizer que isso tem sido freqüente demais, ou até um pouco (ou muito) chato. Mas, que se há de fazer, se eu estava mesmo muito triste? Tristeza-garoa, fininha, cortante, persistente, com alguns relâmpagos de catástrofe futura. Projeções: e amanhã, e depois? e trabalho, amor, moradia? o que vai acontecer? Típico pensamento-nada-a-ver: sossega, o que vai acontecer acontecerá. Relaxa, baby, e flui: barquinho na correnteza, Deus dará. Essas coisas meio piegas, meio burras, eu vinha pensando naquele dia. Resolvi andar. Andar e olhar. Sem pensar, só olhar: caras, fachadas, vitrinas, automóveis, nuvens, anjos bandidos, fadas piradas, descargas de monóxido de carbono. Da praça Roosevelt, fui subindo pela Augusta, enquanto lembrava uns versos de Cecília Meireles, dos Cânticos: “Não digas ‘Eu sofro’. Que é que dentro de ti és tu? / Que foi que te ensinaram/ que era sofrer ?” Mas não conseguia parar. Surdo a qualquer zen-budismo, o coração doía sintonizado com o espinho. Melodrama: nem amor, nem trabalho, nem família, quem sabe nem moradia – coração achando feio o não-ter. Abandono de fera ferida, bolero radical. Última das criaturas, surto de lucidez impiedosa da Big Loira de Dorothy Parker. Disfarçado, comecei a chorar. Troquei os óculos de lentes claras pelos negros ray-ban – filme. Resplandecente de infelicidade, eu subia a Rua Augusta no fim de tarde do dia Tão idiota que parecia não acabar nunca. Ah! como eu precisava tanto de alguém que me salvasse do pecado de querer abrir o gás. Foi então que a vi. Estava encostada na porta de um bar. Um bar brega – aqueles da Augusta-cidade, não Augusta-jardins. Uma prostituta, isso era o mais visível nela. Cabelo malpintado, cara muito maquiada, minissaia, decote fundo. Explícita, nada sutil, puro lugar comum patético. Em pé, de costas para o bar, encostada na porta, ela olhava a rua. Na mão direita tinha um cigarro, na esquerda um copo de cerveja.

E chorava, ela chorava. Sem escândalo, sem gemidos nem soluços, a prostituta na frente do bar chorava devagar, de verdade. A tinta da cara escorria com as lágrimas. Meio palhaça, chorava olhando a rua. Vez em quando, dava uma tragada no cigarro, um gole na cerveja. E continuava a chorar – exposta, imoral, escandalosa – sem se importar que a vissem sofrendo. Eu vi. Ela não me viu. Não via ninguém, acho. Tão voltada para a própria dor que estava, também, meio cega. Via pra dentro: charco, arame farpado, grades. Ninguém parou. Eu, também, não. Não era um espetáculo imperdível, não era uma dor reluzente de néon, não estava enquadrada ou decupada. Era uma dor sujinha como lençol usado por um mês, sem lavar, pobrinha como buraco na sola do sapato. Furo na meia, dente cariado. Dor sem glamour, de gente habitando aquela camada casca grossa da vida. Sem o recurso dessas benditas levezas de cada dia – uma dúzia de rosas, uma música de Caetano, uma caixa de figos. Comecei a emergir. Comparada à dor dela, que ridícula a minha, dor de brasileiro-médio-privilegiado. Fui caminhando mais leve. Mas só quando cheguei à Paulista compreendi um pouco mais. Aquela prostituta chorando, além de eu mesmo, era também o Brasil. Brasil 87: explorado, humilhado, pobre, escroto, vulgar, maltratado, abandonado, sem um tostão, cheio de dívidas, solidão, doença e medo. Cerveja e cigarro na porta do boteco vagabundo: carnaval, futebol. E lágrimas. Quem consola aquela prostituta? Quem me consola? Quem consola você, que me lê agora e talvez sinta coisas semelhantes? Quem consola este país tristíssimo? Vim pra casa humilde. Depois, um amigo me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso. E fui. Não por nobreza: cuidar dele faria com que eu me esquecesse de mim. E fez. Quando gemeu “dói tanto”, contei da moça vadia chorando, bebendo e fumando (como num bolero). E quando ele perguntou “porquê?”, compreendi ainda mais. Falei: “Porque é daí que nascem as canções”. E senti um amor imenso. Por tudo, sem pedir nada de volta.
Não-ter pode ser bonito, descobri. Mas pergunto inseguro, assustado: a que será que se destina?

Caio Fernando Abreu.

Je veux te voir.

Olho para um lado. Olho para o outro. Espio todos os cantos. Feito uma criança prestes a realizar uma travessura. Ou um assassino prestes a dar o golpe final. Sinal de insegurança. Olho para baixo, começo a estalar os dedos. Ajeito o cabelo de um jeito. Depois de outro. Desvio os olhos. Perfuro a palma da minha mão de tanto apertá-la com minhas unhas vermelhas. Sinto meu rosto arder de tão vermelho que encontra-se. Ao menor movimento, paraliso o mundo. Meus olhos focam tudo que está diante de mim - diante da minha vida. (Open up your eyes, open up yo...)
As luzes da manhã ensolarada invadem o meu quarto através de uma pequena brecha na cortina. Insistem em abrir minhas - até então - lacradas pálpebras. Vencida pelo cansaço, resolvo ceder. Os flash's de memória aparecem de tal maneira que atordoam meus pensamentos. Tudo se mescla, há segundos em que não sei mais nem meu próprio nome. E sabe o primeiro sentimento que predomina a minha mente a cada manhã que insiste nascer? Medo. Medo de mim. Não me acho ruim, longe disso... Mas não consigo lidar com a inconstância das minhas emoções. Queria conseguir ser firme no que sinto com relação a mim mesma. Não é só a velha conhecida, a insegurança... É bem mais que isso. Um 'bem mais' que não consigo explicar nem pra mim mesma. Horas que eu sorrio sem razão, que confio em mim mesma, que tenho uma certeza quase cósmica de que as coisas vão se resolver na hora certa. E as - inexoráveis - horas que as lágrimas chegam sem pedir licença, por dentro, e logo querem toda a atenção. Assim exteriorizando-se olhos afora. Aquele desespero no peito... a incerteza de todo um futuro. E finalmente a palavra que faltava aqui: O Medo - Nosso ilustre companheiro. Sim, aquela velha história. Medo de nada dar certo, da minha pessoa estragar tudo e lá lá lá. Até eu me canso dessas mesmas coisas. Pior: Mesmas coisas, mas que, de alguma forma, são completamente diferentes! Me acho, me perco, amo, (penso que) odeio, tenho esperança, mando um 'dane-se' pra tudo, sou meiga, sou fria. Tento ser um mártir, enquanto não preciso ser. Não preciso guardar tudo pra mim, como sempre faço. Não preciso guardar minhas lágrimas e meus sorrisos pra mim mesma. É meio que um egoísmo não querer compartilhar o que quer tanto sair daqui de dentro.
Um dos maiores erros é questionar-se. O por quê de certas atitudes. O por quê de certas decisões. Não há nada nessa vida que tenha tais explicações. Não há motivos. Só pequenos impulsos. Acasos. Percepções. (Palpitações). Premonições. Há o destino, mas também os caminhos que nós próprios traçamos. Nem tudo são flores, nem tudo são revólveres. Mesmo que eu insista em fazer da vida um '8 ou 80', viver de extremos nunca caiu bem. Tem sim que haver um meio termo. Assim como questionava um amigo ontem, como podemos não descontar o mundo desmoronado em pessoas que nada tem com isso? E aí parei pra pensar que, nesse caso, não existe outra personalidade... não com quem não consegue 'não ligar'. Se esconder de pessoas diferentes das outras, isso sim é desafio. Fácil enganar até os que se julgam mais íntimos... triste ilusão deles. Incrível a capacidade de alguns seres humanos em mentir para si mesmos sobre outras pessoas. O 'querer acreditar'. Não passamos de uma pobre raça medíocre, que não sabe o que é amor. Que não sabe o que é união. O que sentimos são apenas sombras projetadas desses grandiosos sentimentos. Sempre acreditei na teoria de vida alienígena. E acredito também que eles não fizeram contato algum por serem inteligentes ao ponto de terem medo. Pois o medo é uma clara forma de inteligência (ir)racional. Auto-preservação. (...)

Finalmente chegamos ao final de Dezembro. Olho para 2010 e, pela primeira vez, não sei o que sentir. Não sei o que achar. Não consigo julgá-lo, ele foi mais complexo do que apenas 'bom' ou 'ruim'. Começou bom, continuou bom, tornou-se épicamente bom, alcançou um ápice da perfeição e então desmoronou. E durante meses... Não, eu não lembro dos meses. Não lembro das minhas lágrimas ou sorrisos. Nem sequer das esperanças ou desesperos lembro... Aquilo que uma amiga falava da própria vida acabou acontecendo com a minha, sem ao menos me dar conta. Situações traumáticas que bloqueiam lembranças. Os meses que arrastaram-se feito correntes, e que agora vejo que passaram 'hipersônicamente' rápido. E depois uma felicidade inusitamente estranha. Irônica. Improvável. Instável. Que eu realmente assumo, não acreditava. E que acaba por ser a mais duradoura que já tive. Em termos de persistência. Paciência. E mais mil coisas que devo ter aprendido nesse tempo. Para comigo. Para com as pessoas. Para com.
Estranho é ver o tamanho das expectativas que todos nós tínhamos pra esse ano. Que não foi um ano ruim... mas que mesmo assim, nos decepcionou além do esperado. Em infinitos aspectos. Não sei o que esperar de 2011. E acho que nem devo o fazer. Seja o que tiver que ser. Farei o que estiver ao alcance das minhas mãos, afinal, nada vem de graça. Mas que o destino se encarregue do resto - esperemos que seja um resto bom. Umas das maiores lições que conclui foi a de perdoar. Não tenho mágoas. (Embora perdoar não signifique esquecer) Não gosto mais de vinganças - quem diria. E desejo, como sempre, felicidade. Isso tudo é muito 'lei da atração'. À partir do momento que passei a levar as coisas com mais calma, mais leveza, e até com uma certa dignidade, minha cabeça ficou melhor. Mais forte, e mais sensível com as pessoas. E mesmo com uma parte do meu mundo insistindo em desmoronar, eu continuo sendo uma coluna impertinente que insiste em manter-se de pé. E digamos que impertinência é realmente uma palavra que não me falta - risos.
Então desejo que esse ano que correu tanto para chegar seja um bom ano. Sem demasiadas expectativas, mas com um 'querer' das coisas. Não apenas desejos, mas 'querer'. (Vide texto do post anterior). 2011, seja o que tiver que ser, seja bom para as pessoas. Seja bom pra mim. Seja bom para essa humanidade que precisa de doses de esperança, não de destruição. Embora eu ache que buscamos tudo isso que vem acontecendo, peço esperança. Confiança. E então amor. Afinal, o que somos nós sem amor? Em tudo que essa palavra engloba. Caridade, fraternidade, igualdade, amor para com amigos. Para com a família. Para conosco. Para com desconhecidos. E para com algum escolhido. Fé, muita fé. Porque cheguei a conclusão de que tudo é proveniente dela. Que o que parece impossível torne-se possível. E todo aquele resto que todos nós, meros mortais, falamos ao final de cada ano.

Adeus, meu caro 2010. Bem vindo, doce 2011.

Chico Buarque @ Roda Viva.

L'autre valse.

- O que se quer.

"Querer alguém, ou alguma coisa, é muito fácil. Mesmo assim, olhar e sentirmo-nos querer, sem pensar no que estamos a fazer, é uma coisa mais bonita do que se diz. Antes de vermos a pessoa, ou a coisa, não sabíamos que estávamos tão insatisfeitos. Porque não estávamos. Mas, de repente, vemo-la e assalta-nos a falta enorme que ela nos faz. Para não falar naquela que nos fez e para sempre há-de fazer. Como foi possível viver sem ela? Foi uma obscenidade. Querer é descobrir faltas secretas, ou inventá-las na magia do momento. Não há surpresa maior.
O que é bonito no querer é sentirmo-nos subitamente incompletos sem a coisa que queremos. Quanto mais bela ela nos parece, mais feios nos sentimos. Parte da força da nossa vontade vem da força com que se sente que ela nunca poderia querer-nos como nós a queremos. Querer é sempre a humilhação sublime de quem quer. Por que razão não nos sentimos inteiros quando queremos? É porque a outra pessoa, sem querer, levou a parte melhor que havia em nós, aquela que nos faz mais falta. É a parte de nós que olha por nós e nos reconcilia connosco. Quanto mais queremos outra pessoa, menos nos queremos a nós...
Querer é mais forte que desejar, pelo menos na nossa língua. Querer é querer ter, é ter de ter. Querer tem mesmo de ser. Na frase felicíssima que os Portugueses usam, "o que tem de ser tem muita força". Desejar tem menos. É condicional. Quem deseja, desejaria. Quem deseja, gostaria. Seria bom poder ter o que se deseja, mas o que se deseja não dá vontade de reter, se calhar porque são muitas as coisas que se desejam e não se pode ter todas ao mesmo tempo.
Querer é querer ter e guardar, é uma vontade de propriedade; enquanto desejar é querer conhecer e gozar, é uma vontade de posse. O querer diminui-nos, mas o desejar não. Sabemos que somos completos quando desejamos - desejamos alguém de igual para igual. Quando queremos é diferente - queremos alguém com a inferioridade de quem se sente incapacitado diante de quem parece omnipotente. O desejo é democrático, mas o querer é fascista.
O que desejamos, dava-nos jeito; o que queremos fez-nos mesmo falta. Mas tanto desejar como querer são muito fáceis. Ter, isto é, conseguir mesmo o que se quer é mais difícil. E reter o que se tem, guardando-o e continuando a querê-lo, tanto como se quis antes de se ter, é quase impossível. Há qualquer coisa que se passa entre o momento em que se quer e o momento em que se tem. O que é?
"Cada pessoa, - dizia Oscar Wilde, - acaba por matar a coisa que ama". Mata-a, se calhar, quando sente que a tem completamente. (...)
A verdade, triste, é que uma pessoa completa, a quem não falta nada, não é capaz de querer outra pessoa como deve ser. No momento em que se sente que tem o que quer, foi-lhe devolvida a parte que lhe fazia falta e passou a ter tudo em casa outra vez. Fica peneirenta, sente-se gente outra vez. É feliz, está satisfeita e deixou de ser inferior à sua maior necessidade. O ter destrói aquilo que o querer tinha de bonito. Uma necessidade ocupa mais o coração, durante mais tempo, que uma satisfação. Querer concentra a alma no que se quer, mas ter distrai-a. Nomeadamente, para outras coisas e outras pessoas que não se têm. (...)
É bom que se continue a julgar que aquilo de que se precisa é exterior a nós. Só quem está voltado sobre si, piscando o olho ao umbigo, pode achar que tem tudo o que precisa. (...)
Quando se quer realmente, dar-se-ia tudo por ter. A coisa ou a pessoa que se quer têm o valor imediato igual a todas as coisas e pessoas que já se têm. Trocavam-se todas as namoradas, ou todos os namorados, que já se namoraram, pelo namoro de uma única pessoa que se quer namorar. É esta a violência. É esta a injustiça. Mas é esta também a beleza. Quem aceitaria que um novo amor significasse apenas parte de uma vida? Não sendo a vida inteira, não sendo tudo o que importa, numa dada altura, num dado estado do coração, porque nos havíamos de ralar? (...)
O querer é bonito porque, concentrando-se na coisa ou na pessoa que se quer, elimina o resto do mundo. O resto do mundo é uma entidade muito grande que tem graça e tem valor eliminar. Querer um homem em vez de todos os outros homens, uma mulher em vez de todas as outras mulheres é fazer a escolha mais impossível e bela. Acho que se pode ter tudo o que se quer de muitas pessoas ao mesmo tempo, mas que não se pode querer senão uma pessoa. Ter todas as pessoas não chega para nos satisfazer, mas basta querer só uma, e não a ter, para nos insatisfazer. É por isso que se tem de dar valor à vontade. Poder-se-á querer ter alguém, sem querer também ser querido por essa pessoa? Eu não sei.
Como raramente temos o que queremos ter ou queremos bem ao que temos, é boa ideia dar uma ideia da atitude que se pretende. Em primeiro lugar, convém mentalizarmo-nos que querer é desejável só por si, pelo que querer significa. Quem tem tudo e não quer nada é como quem é amado por todos sem ser capaz de amar ninguém. Dizer e sentir "eu quero" é reconhecer, da maneira mais forte que pode haver, a existência de outra pessoa e de nós. Eu quero, logo existes. Eu quero-te, logo existo.
Em segundo lugar, ter também não é tão bom como se diz. Ter alguém ocupa um espaço vital que às vezes é mais bonito deixar vazio. (...)
Ter o que se quis não é tão bom como se diz, nem querer o que não se tem é assim tão mau. O segredo deve estar em conseguir continuar a querer, não deixando de ter. Ou, por outras palavras, o melhor é continuar a ser querido sem por isso deixar de ser tido. O que é que todos nós queremos, no fundo dos fundos? Queremos querer. Queremos ter. Queremos ser queridos. Queremos ser tidos. É o que nos vale: afinal queremos exactamente o que os outros querem. O problema é esse."

(Os Meus Problemas; Miguel Esteves Cardoso.)

U2 @ City of Blinding Lights.

Time.

Aprendizado. Tolerância. (Re)Elevação. Pa-ci-ên-cia. Palavras incontestavelmente fortes. Aquelas que mentalizamos à fim de catalisar-mos seus sentidos. A última delas, paciência, é - e sempre foi - o meu grandioso desafio. Ter controle sobre tal traço... A paciência é dádiva dos sábios. Logo, nunca foi um ponto forte da minha personalidade (risos). Mas 2010 foi - e é - um ano que exigiu o aprimoramento de vários pontos. Não preciso mencionar que a paciência foi primordial. Principalmente de Julho pra cá. Vejo tudo como teste e como "medidas de evolução". Correlacionado com isso, temos o aspecto da "adequação". Sempre fui adepta ao pensamento de que não devemos mudar nosso interior por ninguém, se não por nós mesmos. Com as páginas do tempo sendo viradas, amadureci a linha de raciocínio. Tanto que hoje a minha opinião resume-se em "adequação". O ato de adequar-se as mudanças que você julga serem, no mínimo, favoráveis. A partir do momento que escolhemos seguir por um caminho, sabendo suas devidas dificuldades, consequências, julgamentos... Tendo somente uma "ideia" da recompensa que espera-lhe ao final de tudo. Ou seria ao começo de tudo? Ah, o começo (...).

Fecho meus olhos, presenteio-lhes com a escuridão. E então retorno a vislumbrar tudo, exatamente como tenho feito nos últimos tempos, exatamente ao modo milimetricamente planejado como imagino. Cada detalhe. Cada respiração. Cada borboleta explorando meu estômago. Sinto o medo impregnar cada gota de sangue que corre em minhas veias. E quem disse que essa garota com seus - poucos - 18 anos, a que julgam ser forte feito um carvalho - e insensivelmente cruel feito um diamante - não chora? Oh sim, ela chora. E suas lágrimas traiçoeiramente frias molham seus longos fios de cabelo. As incompreesivas lágrimas. Ela (a garota) muitas vezes pega-se sentada em sua varanda, olhando o tempo virar mais algumas páginas. Nem ao menos sabe o que a espera, o que o futuro graciosamente preparou-lhe para o prato principal do jantar a se seguir. Muito menos o que os meses trarão com seus vários dias, inúmeras horas e infinitos minutos. Embora esse mundo de incertezas transtorne, até de maneira oblíqua, sua mente. Mesmo que isso a corroa feito um veneno, lenta e gradativamente. O antídoto está logo ali. Então retrocedemos a uma certa palavra, a uma adequação, a um traço, a uma dádiva, a um poder, a uma vitória: Paciência. Dar tempo ao próprio tempo. Manter o movimento retilíneo e esperar. Se as pessoas adequam-se a você, menina, adeque-se a elas reciprocamente. Por elas, por você. Se vale a pena insistir no que se quer, insista com inteligência. Intensidade. Vontade. Ardente desejo. Jogue para ganhar. Tenha os pés no chão e a cabeça no lugar (acima do pescoço, suponho.), mas não imponha condições a si mesma. E mais que isso: Nunca introduza um freio em seus sonhos. "Tudo o que existe, ou existiu, começou com um sonho." Continue lendo e escrevendo nas páginas do tempo, não perca o fôlego. E tenha paciência... E tenha fé... E sonhe... E ame. Ame muito. Recíproco.


Train @ Hey, Soul Sister.