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Password C657.

Dias frios, dias quentes. Com vento, sem vento. O mormaço do tempo vai se dissipando com a despedida do Outono e as boas vindas do Inverno. Pedalo em minha bicicleta, balançando os livros que estão dentro da cesta. Balançando a garrafa de vinho e as frutas. 16:30h, o lago ainda está banhado de sol - aguardando. Só me vem na memória Corinne Bailey Rae no (quase) clássico clipe de Put Your Records On, numa dança de verão sob duas rodas pedalantes. Isso não vem ao caso, voltarei ao ponto. Ah sim, o vinho. Tinto, por gentileza. Uma toalha florida estendida na grama, presa pela bicicleta jogada e pelas minhas alpargatas descalças. Meu vestido tenta voar com o vento, melhor sentar logo. Fito o lago, me perdendo da realidade, voando em pensamentos distantes. Encho uma única taça de vinho - enquanto gostaria de encher outra além da minha. Sinto o aroma que exala da solução de uvas e álcool, suave. A brisa acariciando meu rosto, fios rebeldes de cabelo voando sem rumo, vestido amarelo esvoaçante. Mordo uma maçã, abro o livro envelhecido em uma orelha e coloco meu óculos. O sol lentamente vai tocando a água do lago, evaporando. O vinho desaparece gradativamente da taça, uma gota mancha o vestido amarelo. Olho o celular, caixa vazia. Cabeça vazia. Coração esvaziando - equiparado a garrafa de uvas alcoolizadas. Os meses correm, uma taça enche e esvazia, enquanto outra mantem-se vazia. Vão, voam, voltam. 
E o vestido amarelo mantém a sua gota. 
Annie. 

Sarah Brightman @ Deliver Me. 

Password 608.

Sol quente, água fresca, olhos semi abertos. Meus pés tocam a superfície translúcida e azul. Levanto e mergulho na piscina - em um surto de coragem. Lá embaixo, batendo as pernas, sinto-me leve. Perdida em pensamentos embolorados e cafés à deriva. Volto para o mundo ensolarado, com a cabeça fora d'água. Flutuo, fecho meus olhos castanhos e retorno a outros dias quentes. Amarelos. Ou seriam pincelados de verde? Coloridos, sem dúvida alguma. Com bambus, pedras e Amélie Poulain. Continuo flutuando. Onze e meia da manhã, sinto minha pele branca queimando - como de costume. Nado até a escada, subo e agarro minha toalha azul. Um novo oftalmologista me aguarda em 1 hora em seu impecável consultório desconhecido. Subo os lances de escada com o cabelo pingando, entro em casa. Para a minha surpresa, torradas amanteigadas estão na sala, me recebendo ainda quentes. Percebo a falta de um pedaço numa delas, quando vejo um bilhete repousando ao lado. "As que você gosta após mergulhar. Voltei, An." Um breve sorriso surge em meu rosto, mordo a torrada mutilada e falo para o nada: Seja bem vindo.

Annie

Dido @ Here With Me

Password 156.

Vento. Frio. Pressa. Aperto a bolsa contra o peito, como se isso trouxesse algum tipo de conforto. Meus passos ganham velocidade, ouço meu belo par de botas chocando-se frequentemente em obstáculos na calçada. Tropeço, quase caio. Só quero cruzar a porta do meu apartamento. Porém, por mais que eu me esforce, não consigo prestar atenção no caminho. Tropeço mais uma vez. Olhando para os meus desajeitados passos no chão, reparo que consegui chegar viva na entrada do prédio. "Aonde estão essas malditas chaves?" - bravejo em pensamento, enquanto ouço trovoadas anunciando uma chuva já prevista. Entro em casa, tranco a porta, jogo as chaves na mesa de entrada. Solto a bolsa ao pé do sofá e solto meu próprio corpo na minha adorável poltrona azul turquesa. Fecho meus olhos lentamente. Mentalmente, tento me convencer de que tudo irá melhorar. Afinal, Agosto e o seu típico inferno astral finalmente chegaram ao fim. Espero que o final deste cansativo ano seja tranquilo. Levanto-me, descalço as botas, vou até a janela e sento em seu parapeito. Assisto o espetáculo de dança que os pingos de chuva proporcionam. Cada um com a sua própria coreografia. Volto aos meus pensamentos. Começo a refletir como a vida tem sido irônica. Da turbulência de acontecimentos que ainda pairam no ar. Sinto falta dos dias calmos e das brisas felizes. Das cores que todos aqueles sentimentos me faziam enxergar. Falta dos aromas, dos sabores. Do conforto, e até das insanas preocupações. Hoje tenho lutado para simplesmente continuar a sonhar. Ter planos. Traçar metas. Voltar a ser vívida. Interrompendo meus devaneios, meu celular avisa o recebimento de uma nova mensagem. Estico o braço e quase caio, tentando alcançar a bolsa. Pego o celular e, assim que vejo o remetente, abro um sorriso. Antes mesmo de ler já imaginava qual era o conteúdo. Passo os olhos pelas letras - ouço cada sílaba - e confirmo minha afirmativa: "Você me orgulha". Alastro ainda mais o sorriso e respondo singelamente: "Não sou de todo mal, viu? haha". Vou até a cozinha e preparo o meu - já tradicional - café com gotas de menta. Levo minha xícara até a janela e aninho-me novamente em seu parapeito. Ali compreendi a certeza que já se alastrara por todo o meu corpo e mente: Tudo ficará bem. Agosto já se foi.

A chuva continuava a cair. O café lentamente chegava ao fim.

Annie.

Jem @ Maybe I'm Amazed.

Password B306.

Pássaros cantam do lado de fora da janela. Aquele costumeiro sol da manhã - que tanto adoro - entra pelas frestas da persiana. Levanto. Preparo meu café. Preparo minhas torradas devidamente amanteigadas. Abro as janelas, sinto o sol acariciando meu rosto, delicadamente. Sento-me no parapeito, observo a rua, já movimentada, andares abaixo. Noto uma mulher sentada em um banco, no outro lado da rua, com um bebê no colo. Imagino os sorrisos de ambas criaturas. Sinto de longe a aurea leve e feliz que envolve as mesmas. Pego-me em profundo devaneios, de um futuro - ainda distante. Questiono-me se um dia serei merecedora de tal felicidade. Se sequer terei preparação para recebê-la. Sem notar, vejo um homem se aproximando da mulher. Carrega algo em sua mão (Seria um sorvete?). Ele se senta ao lado dela e leva-lhe o que acho ser uma colher à boca (Sim, sorvete). Tenho a impressão - ou desejo - que estejam rindo. Um som interrompe bruscamente a minha observação. O notebook ao fundo da sala volta a chamar a minha atenção com o som de um novo email. Quando olho, para a minha grande surpresa, não é um anúncio ou algum vírus. Um familiar remetente. Uma familiar escrita. "Amor?" Uma audácia desconhecida até então. Meus pensamentos adormecidos envolvem-me em um manto de sentimentos que não me pertencem mais. Entre um pensamento e outro consigo ler: "Desculpe-me, An.". Não entendo o que mudou para tal email ser escrito. Na realidade, não entendo nada. Termino de ler. Paro pra ouvir a minha alma questionando: "Pra quê?". Concordo com ela. Mas por quê Mark parou de pensar o mesmo que nós duas? Volto ao parapeito da janela, continuar aonde parei. Espanto-me ao perceber que não há mais casal, não há mais bebê - e não há mais sorvete. Simultaneamente tenho um estalo. Volto para o email, responder, novo email: Annie envia. "Pra quê?". Sua mensagem foi enviada com sucesso. (Meu café termina de esfriar. Minhas torradas estão moles, frias.)

Abro os olhos. Pássaros cantam do lado de fora da janela. Aquele costumeiro sol da manhã...

Annie.

Carla Bruni @ Quelqu'un m'a dit.

Password: Afloat.

Infinitos raios de sol. Provenientes de somente um único raio solar, que está em sincronia com o prisma de cristal. Este que repousa sutilmente sob o rádio da cozinha. Nos raios de sol fico observando a dança dos flocos de poeira que dançam no ar. Lá fora um dia lentamente vai tomando consistência com o subir do Sol. Sento no parapeito da janela, observando o céu límpido e azul. Imersa em meus pensamentos oblíquos. Uma saudade corrói meu peito de maneira lenta, gradual e abusa. Fecho meus olhos e sinto uma sorrateira lágrima cortar meu rosto. Mas, ao mesmo instante, sinto uma mão assassinando-a. Não a minha mão fria... E sim uma mão calorosamente agradável. A mesma percorre todo o meu rosto, acaricia minhas - coradas - bochechas, desliza sob meus lábios e finalmente para, segurando meu queixo. Permaneço de olhos fechados. A mão o inclina. Subitamente sinto uma respiração aproximando-se cada vez mais de mim, até parar a 3 milímetros. Permanecemos no descrito estado por, aproximadamente, 10 minutos. Até que, com as pálpebras cerradas, assassino os 3 milímetros. Simultâneamente delicados lábios encontram-se com os meus. Abro meus olhos. Deparo-me com fervorosos olhos castanhos, juntamente com um sorriso estonteante. Passo minhas mãos diretamente para seus cabelos, entrelaçando meus dedos aos seus fios negros. Sinto sua outra mão brincando com uma mecha do meu cabelo liso. Minhas mãos deslizam para o seu rosto, sentindo sua barba crescendo em 2º estágio - o meu preferido. Acaricio os macios lábios com a ponta dos dedos, fazendo desenhos com as unhas vermelhas. Repentinamente, ele aproxima-se até meu ouvido e sussurra irresistivelmente as palavras que esperei tanto para ouvir novamente. "Como senti sua falta, An." Seguro seu rosto firmemente entre as mãos e falo o que sempre me faz corar ao dizer. "Não vá embora novamente então." Sua mão, que continuara em meu queixo, puxa-me decisivamente para junto de si. Sinto novamente meus lábios contra os seus, intensa e fervorosamente. Queria que isso durasse até o fim de meus dias, como de costume. Que Mark estivesse para todo o sempre aqui, comigo. Ele ri, o que arranca-me dos pensamentos clichês - risos. Passo a olhá-lo interrogativamente. Até que ouço "Sério, An, como vives sem mim?" Dou uma alta gargalhada e faço menção de levantar, até que -previsivelmente - sinto suas mãos envolverem minha cintura e puxando meu corpo contra o seu. No que resultou em nós dois caindo no chão. Rindo mais do que é possível descrever. E ele sussurra entre gargalhadas: "Boba, eu não vivo sem você também." Tenho mais 2 dias para desfrutar das mais belas palavras clichês. O Sol envolve-nos enquanto sou bombardeada com perguntas entusiasmadas sobre a minha semana e enquanto sua mão me puxa rua abaixo. "An, você está me ouvindo?" - pergunta ele rindo. Não respondo. Sorrio, solto-me de sua mão e dou 10 passos para longe. "Comece a refletir mais, caro Mark" Corro, rindo alto, ouvindo passos e risadas correndo mais rápido que eu. Refletindo...

Annie.


Jason Mraz @ I'm Yours.

Where's the password?

Potes de biscoito. Intrigantes potes de biscoito. Guardo vários tipos de potes de biscoito, todos expostos em minha cozinha aconchegante. Geralmente ao olhar cada um deles, metodicamente, a infância invade minha mente. Rodopiando lembranças, emoções, nostalgias. Saudade. Aquela palavra cujas traduções nunca vieram a existir. E aquela palavra que mais me machucou na vida (ainda machuca - silêncio). Olho pela janela, 5 andares separam-me do chão. Ouço o pão pulando na torradeira. Já são 9 horas, mas o tempo nublado, chuvoso e frio trouxe-me uma simpática gripe. Sinto cheiro de minhas torradas recém-prontas. Aquele cheiro que lembra os desenhos de quando éramos crianças - geralmente Pica-Pau - nos quais aparecia aquela mão com dedos sedutores, feita com a fumaça quase incolor proveniente dos alimentos apetitosamente frescos. Ainda visto meu pijama flanelado com meu roupão azul turquesa - e pretendo tomar meu banho e permanecer do mesmo modo depois. Levo minhas torradas - agora pinceladas com manteiga derretida - junto à minha xícara de café, fresco e quente, até a poltrona listrada que descansa junto a janela. Um feixe de sol surge bem ao meio dela. Propício, não? Ainda vejo minhas 2 pedrinhas na mesinha de chaves ao lado da porta. Elas me encaram, fitando meus olhos adentro. Desvio o olhar, mas é tarde demais. As 2 pedrinhas já alcançaram seu objetivo eminente. Pousei a xícara na janela e apoiei meu queixo sobre a própria. Fecho meus olhos e vejo um jardim japonês. Abro os olhos e o sol invade meu interior, sem ao menos pedir permissão. Fecho meus olhos e vejo a mim, pulando para atravessar um caminho de pedras. Olhando para trás e rindo - feito uma criança - envergonhada. Recebendo em troca um outro sorriso - juntamente com um olhar - iluminado de alegria. Abro os olhos e minha vista encontra-se embassada. Fecho os olhos e vejo o topo de dois conjuntos de bambus. Abro os olhos de maneira brusca e começo a desmanchar de maneira lenta, vaga e dolorosa. Esfrego as mãos em meu rosto, termino meu café e deito-me desajeitadamente no sofá. Com as mãos escondendo o rosto - ainda. Abaixo as mãos, olho para o teto amarelo. Meus batimentos cardíacos retornam para seu estado tranquilo, conforme os minutos transcorrem. Fecho os olhos. E nós continuamos dançando.
Just 'cause you feel it, doesn't mean it's there...

Annie.


Radiohead @ There There (The Boney King Of Nowhere)

Password C688.

Eu deveria dar mais ouvidos ao que Lisa me diz. Somente depois do que faço, e da chegada das consequências, é que percebo que as palavras nem sempre doces de Lisa faziam completo sentido. Hoje recebi uma carta de um fantasma de um passado distante. Percebi que em meio a expressões de opinião, aquela costumeira preocupação que já me é tão familiar não conseguiu ser camuflada. Comecei a lembrar de cartas antigas e emboloradas que estão numa caixa, no fundo de uma gaveta na cabeceira. De um passado mais distante e profundo ainda, repleto de ironias. Estranho é lembrar sem saudades. É a realidade. Somente fantasmas.

Os dias tem passado de forma ligeira - até demais. Agosto nos trás à tona um sentimento ainda mais intenso e vívido de nostalgia. Com certos momentos que até nos transportam para outro tempo - juntamente com outras pessoas. Aliás, ultimamente venho percebendo que Henry lentamente transforma-se em um fantasma. Mesmo de maneira hesitante, estou permitindo a sua partida. Para fora de mim, assim como deve ser. Tenho plena (cons)ciência de que, por mais inexorável que seja, é a decisão com maior grau de coerência que eu poderia ter em mãos. A vida ainda está longe de ser justa e/ou fácil. E, na realidade, creio que morrerei antes de proferir tal frase em sentido contrário. Mas ainda possuo fé suficiente para acreditar que alguns fatos podem - e vão - melhorar. Mesmo que a minha estúpida e obtusa mente só os perceba tempos depois. Afinal é o que acontece de maneira - quase - perpétua, não? Ouço meu telefone tocar na sala. Não preciso atendê-lo para saber quem chama, e para quê chama. Mas, desta vez, sequer atenderei. Não consigo aceitar mais convites para tomar um café - mesmo que este seja o meu preferido. Para quê? Para brincar com mais um humilde ser humano? Sim, eu deveria acreditar em Lisa quando ela diz "Annie, você não é mais dona do seu coração. Ele sequer reside dentro de si.". Não possuo mais o meu coração, mas também ninguém o tem. Estrelas. Somente as estrelas tem o devido direito sob o meu órgão vital pulsante. Apenas elas são previamente autorizadas a arrancar aquele brilho de meu olhar. Olhe para as estrelas, olhe como elas brilham para você...

Se a fé move montanhas, por que não corações?

Annie.


Dario Marianelli @ Your Hands Are Cold.

Password C707.

Correndo. Todos os meus músculos se contraem a medida que continuo correndo. Minha respiração permanece ofegante. Chuva. A chuva só aumenta. Sinto meu corpo completamente enxarcado. Com meu jeans e minha blusa de alça quase acoplados em mim. Olho para o céu, está escurecendo. Preciso correr mais rápido. Já prevejo o discurso de Lisa quando me ver assim: 'Eu avisei para você ficar em casa, Annie. Disse-lhe que tudo estava - na verdade ainda está - contra você e essa tua petulância.'.
Fui petulante - e fraca - pelo que julgava ser um grande motivo. Estava completamente equivocada. Henry não é a mesma pessoa, não o conheço mais. Acho que nunca acreditei que alguém tão doce e gentil pudesse se transformar em um ser frio, inanimado e sem sentimentos. Sabes o que é pior? Por ter sido estúpida em supor que seria diferente, não terminei somente de perder razão de felicidade. Joguei fora aquele que começara a se tornar importante, George. Como sempre, Annie fere-se com o que não presta e machuca quem possuia devido valor real. Continuo correndo, mesmo tendo ciência de que já não adianta. E presumo que é melhor dessa forma. A tendência é sempre que as pessoas machuquem-se ao meu lado. Então que eu permaneça com minha solidão particular. Até aparecer alguém que me agrade, que venha correr ao meu lado na chuva. E que, provavelmente, desapareça após isso. Claro, meu interior espera que isso mude. Uma hora ou outra. Mas sei - apenas por saber - que outros Henry's e George's vão surgir do nada e mudar tudo. Prossigo, sem saber o que o futuro me reserva, mas sabendo que o meu café com gotas de menta estará me esperando na bancada da minha cozinha. E, desta vez, ainda quente.

Annie.

Soundgarden @ Black Hole Sun.

Password C683.

Surreal. Inexorável. Minha expressão não consegue omitir tamanha perplexidade que me foi causada com a chegada do correio matinal. Em plena - e ensolarada - terça-feira, meu - que nunca foi realmente meu - Henry decide por livre e espontânea vontade cumprir suas palavras de um passado que não nos pertence mais. "Mandar-te-ei uma carta, escrita à próprio punho, dando-lhe todas as explicações que vais cobrar um dia.". Passo meus dedos finos e longos pelo envelope, acariciando as marcas da tinta preta, desenhando delicadamente sua perfeita caligrafia. Olho através da cortina entreaberta o raio de sol que ilumina exatamente o lugar em que me encontro sentada, em meu sofá azul turqueza (...).

Um barulho irritantemente forte perfura meus pensamentos. Badaladas. 10 badaladas. Olho para baixo e deparo-me com as próprias mãos entrelaçadas ao vestido amarelo que coloquei assim que acordei. Devaneios. Sempre crueis, sempre pontuais. Meus olhos ardem. George me aguarda no café, há 6 minutos. Pego minhas chaves, tranco a porta, aciono o alarme. Aciono o alarme da minha mente instável, simultaneamente. Dirijo-me ao caminho oposto, e sinto George se afastando lentamente... sinto meu café com delicadas gotas de menta esfriando. Comigo, simultaneamente.

Annie.


Radiohead @ Last Flowers.

Password C651.

Sentada a janela, sinto os trilhos percorridos por este trem. Encosto meu rosto ao vidro gelado, que retrata a imensidão da neve lá fora. Ao fechar os olhos lembro-me de cada detalhe do rosto de Henry. O desenho de seus olhos, a expressão dos mesmos ao encontrarem os meus. As ruguinhas de expressão que formavam-se ao lado deles quando um sorriso era esboçado. O jeito deliberadamente singelo e carinhoso com que eu era observada. Sinto meu coração desmanchar-se inteiramente. Lembro como se estivesse ocorrendo nesse instante, a voz dele indagando-me: 'O que foi, Annie?'. Só pelo fato de meus olhos não conseguirem desvencilharem-se dos seus, por toda a minh'alma ficar paralisada no tempo só para poder continuar observando-o minuciosamente. E a minha pessoa responder-lhe que não era nada, enquanto o meu pensamento analisava a maré de sorte que estava em minhas mãos, ao alcance do meu olhar - e de minhas palavras. Abro meus olhos, encontro-me congelada junto ao vidro, não sozinha... George dorme profundamente em meu ombro. E mesmo não fazendo ideia se Henry sequer dará algum sinal de vida, um pedaço de minha melhor essência estará com ele, mesmo que guardado sem o seu consentimento. Não consigo odiá-lo, não consigo deixá-lo partir. Essa é uma inexorável contradição. Infelizmente, hoje, Henry não passa de uma memória. Que de tão imaculada me parece mais uma ilusão, um devaneio. Ou talvez um sonho. A mão de George repousa delicadamente sob a minha, isso é real. Não é perfeito, e nem de longe o que meu âmago desejaria, mas é o que ganhei em troca de tantas lágrimas. E espero ardentemente que, um dia, o pedaço que Henry deixou para traz comigo possa voltar para o seu devido lugar.

Don't worry...

Annie.


Coldplay @ Death And All His Friends

Password C615.

Indo. Indo. Indo. Indo. Sempre a mesma resposta. Mas indo pra onde? Sozinha ou acompanhada? E existe alguma finalidade? E motivos, quais os trouxeram até aqui? Estás feliz? Não?! Mas por que? Oh... compreendo. Há alguma coisa que eu possa fazer? Ah, previsível. Me perdoe por tamanha indiscrição ... mas estás sozinho? Não me responda... tenho pavor de sua resposta. Se não, uma ignorante & intolerante esperança invade meus pensamentos. Se sim uma inexorável dor toma contas das minhas entranhas e me prova que minhas intuições obtusas estavam, por fim, corretas. Já disse que não quero ouvir sua resposta, ambas opções são ruins. Continue indo. Indo. Indo. Indo. Eu irei também, mas por outro caminho. Buscar o que não pude encontrar em vossa pessoa, a qual me foi tão importante. Oh... Henry, não sinta. Não lhe pedi para sentir nada. Ao contrário, você... Desculpe, prometi que não faria isso. Como "Isso o que?" ? Expor os fatos pela minha tamanha impulsividade, lhe culpar por tudo que houve nesse tempo pra cá - mesmo sendo realmente culpa tua. Okay, desculpe-me novamente, não pude evitar. Mas não me diga que sente muito, enquanto não possui sentimento algum. É por isso que evito conversar com você. E sempre será assim, agora... Sempre irei querer saber por quê, com quem. E vossa senhoria sempre irá fugir ou/e me responder com mentiras e omissões. Desculpe-me, Henry... Mas ultrapassa qualquer tolerância regredir nisto e parar quando só havia amizade. Isso não existe. Por quê? Por sua exclusiva e total causa. Pare de contestar, posso lhe dar uma explicação. Já lhe disse que detesto ser previsível, sempre gostei de te surpreender. Obrigada, como eu ia dizendo... Sua causa, pois fostes tu que demonstrastes que nada mais existia ou importava. Pare de fingir que sente muito, Henry! Bom, já terminei. Oh, não, não quero e nem vou escutar o que tens a falar. VOCÊ precisava me escutar, tanto que concordou pacificamente me ouvir. Eu já lhe dei atenção até mais do que mereces. Não, não estou brincando. Pare de agir feito marionete. Ah, quê? Finalmente! Minha vez de ir, até qualquer dia! (Ou não)

- Elize, uma xícara de café e um novo amor. Quentes, por favor. Obrigada.


Gregorian @ Join Me (ft. Sarah Brightman)