Password 608.

Sol quente, água fresca, olhos semi abertos. Meus pés tocam a superfície translúcida e azul. Levanto e mergulho na piscina - em um surto de coragem. Lá embaixo, batendo as pernas, sinto-me leve. Perdida em pensamentos embolorados e cafés à deriva. Volto para o mundo ensolarado, com a cabeça fora d'água. Flutuo, fecho meus olhos castanhos e retorno a outros dias quentes. Amarelos. Ou seriam pincelados de verde? Coloridos, sem dúvida alguma. Com bambus, pedras e Amélie Poulain. Continuo flutuando. Onze e meia da manhã, sinto minha pele branca queimando - como de costume. Nado até a escada, subo e agarro minha toalha azul. Um novo oftalmologista me aguarda em 1 hora em seu impecável consultório desconhecido. Subo os lances de escada com o cabelo pingando, entro em casa. Para a minha surpresa, torradas amanteigadas estão na sala, me recebendo ainda quentes. Percebo a falta de um pedaço numa delas, quando vejo um bilhete repousando ao lado. "As que você gosta após mergulhar. Voltei, An." Um breve sorriso surge em meu rosto, mordo a torrada mutilada e falo para o nada: Seja bem vindo.

Annie

Dido @ Here With Me

Express.

Primeiramente, não tive oportunidade de me despedir de 2011. Um dos anos mais tranquilos que já tive, se não o mais. Que foi justamente a única coisa que pedi na virada dele. Já agradeci muito por tal tranquilidade (excluindo alguns incidentes, mas nada é perfeito), volto a agradecer aqui. Era um bem necessário, dadas as últimas turbulências. Embora eu sempre tenha sido adepta da calmaria, da ausência de grandes eventos, confesso que senti falta de algumas - poucas - emoções que sempre tive. Afinal, minha vida é ou não é uma novela mexicana (como já bem dizia o Gabe)? Mesmo assim, tive o final de ano mais tranquilo de todos os tempos. Com uma virada de ano péssima. Sem graça. Nada de Tamborindeguy, uma lástima. Tudo bem, that's life.

2012. Não sei o que esperar desse ano, sinceramente. Após aquela esperança suprema no começo de 2010, parei de especular excessivamente. Continuo com a maré baixa, entretanto, aceito algumas ondas. É saudável. Esse ano começou realizando uma vontade. Tal acontecimento me fez clarear a cabeça, ver que não mudou quase nada - pra mim. O que é surpreendente, pois sempre muda. O que me faz refletir que não reonheço essa pessoa inerte que estou representando. Embora, ao mesmo tempo, tenho pensado nisso insistentemente. Sonhado também, quem diria. E só essas pequenas atitudes inconscientes tem me deixado com um sorriso nos lábios. Tenho me sentido bem assim.

Em meio a pressão psicológica vinda de diversos pontos, mantenho-me calma. Sem pânico. Sem desespero antes da hora. Enquanto houver aquele 1% de chance, minhas esperanças estarão ativas e de pé. Sempre desafiei a vida assim, não mudaria logo agora. Esse ano tem tudo pra ser bom, vamos lá suar pra que tudo dê certo. Contando com muita ajuda também, é claro. Porque como já dizia o mestre Jobim "É impossível ser feliz sozinho". E como a solidão nunca pertenceu a mim, deixo as honras pra quem a tem.

Sem mais rodeios, seja bem vindo 2012.


George Harrison @ Got My Mind Set On You

In the sun.

Esse mês de Novembro me deu muitas coisas pra pensar. Algumas que eu já havia começado a pensar há meses atrás, mas que tomaram uma forma mais definida agora. E outras que tropecei por esses caminhos tortos da vida. Desde que eu virei as costas e sai andando, só uma palavra ressoa delicadamente em minha mente: 'Imbecil. Sou uma imbecil.'. (...)

Irônica
é essa minha vida, não existe frase mais apropriada. Você pede em pensamento que algum sinal divino seja enviado, para saber se pode ou não fazer algo. E por fim não ganhas um sinal. Você ganha fogos de artifício. Nessa hora aquela peculiar vontade de ser um avestruz e enfiar a cabeça na terra é quase que predominante - risos. Isso tudo tem sido quase um terremoto. Pra uma pessoa que tornou-se algo tão frio e rígido feito um iceberg, essa situação tem sido uma prova de fogo. Que vem derretendo as camadas superficiais, assim expondo cada vez mais o interior. A consequência óbvia disso é que tudo aquilo que eu optei por esconder, devido ao instinto de autopreservação, vai se esvaindo de minhas mãos, lenta e gradativamente. Meus nervos ficam a flor da pele, por não saber como lidar com essa exposição - ainda.
A minha tendência é sempre de ter medo, de hesitar ao máximo. Você ganha tantas bofetadas seguidas da vida, que uma hora isso acaba acontecendo obrigatoriamente. Venho tentando retroceder essa era glacial de mim mesma há vários meses. E - acho que - agora isso é quase uma prioridade, devido as circunstâncias à mim apresentadas.

Novembro vai se encaminhando para o seu desfecho, dando lugar ao mês de Dezembro. Entre árvores de natal, chesters, pisca-piscas e presentes, existe aquela áurea mágica que envolve até os mais desacreditados dessa época, como eu. Que tal mágica sirva de algo, nem que seja só para alguma tranquilidade forjada. O verão também se aproxima, trazendo consigo aquele calor excessivo (from hell). Que esse iceberg derreta. E que eu possa retomar o meu lugar de direito.

Norah Jones @ Don't Know Why

Password 156.

Vento. Frio. Pressa. Aperto a bolsa contra o peito, como se isso trouxesse algum tipo de conforto. Meus passos ganham velocidade, ouço meu belo par de botas chocando-se frequentemente em obstáculos na calçada. Tropeço, quase caio. Só quero cruzar a porta do meu apartamento. Porém, por mais que eu me esforce, não consigo prestar atenção no caminho. Tropeço mais uma vez. Olhando para os meus desajeitados passos no chão, reparo que consegui chegar viva na entrada do prédio. "Aonde estão essas malditas chaves?" - bravejo em pensamento, enquanto ouço trovoadas anunciando uma chuva já prevista. Entro em casa, tranco a porta, jogo as chaves na mesa de entrada. Solto a bolsa ao pé do sofá e solto meu próprio corpo na minha adorável poltrona azul turquesa. Fecho meus olhos lentamente. Mentalmente, tento me convencer de que tudo irá melhorar. Afinal, Agosto e o seu típico inferno astral finalmente chegaram ao fim. Espero que o final deste cansativo ano seja tranquilo. Levanto-me, descalço as botas, vou até a janela e sento em seu parapeito. Assisto o espetáculo de dança que os pingos de chuva proporcionam. Cada um com a sua própria coreografia. Volto aos meus pensamentos. Começo a refletir como a vida tem sido irônica. Da turbulência de acontecimentos que ainda pairam no ar. Sinto falta dos dias calmos e das brisas felizes. Das cores que todos aqueles sentimentos me faziam enxergar. Falta dos aromas, dos sabores. Do conforto, e até das insanas preocupações. Hoje tenho lutado para simplesmente continuar a sonhar. Ter planos. Traçar metas. Voltar a ser vívida. Interrompendo meus devaneios, meu celular avisa o recebimento de uma nova mensagem. Estico o braço e quase caio, tentando alcançar a bolsa. Pego o celular e, assim que vejo o remetente, abro um sorriso. Antes mesmo de ler já imaginava qual era o conteúdo. Passo os olhos pelas letras - ouço cada sílaba - e confirmo minha afirmativa: "Você me orgulha". Alastro ainda mais o sorriso e respondo singelamente: "Não sou de todo mal, viu? haha". Vou até a cozinha e preparo o meu - já tradicional - café com gotas de menta. Levo minha xícara até a janela e aninho-me novamente em seu parapeito. Ali compreendi a certeza que já se alastrara por todo o meu corpo e mente: Tudo ficará bem. Agosto já se foi.

A chuva continuava a cair. O café lentamente chegava ao fim.

Annie.

Jem @ Maybe I'm Amazed.

Rehab.

Eu não escrevo desde Abril. E poderia dizer que estou sem tempo. Que tenho tido muitas coisas para fazer. Para resolver. Para pensar. Para refletir. Para decidir. Não. Nunca estive tão desanimada para escrever, na realidade. Desanimada? Que dramático. Acho que é só um simples 'estou sem vontade' e ponto. E penso que não é só no campo da escrita que isso vem ocorrendo... Cheguei no mês de Agosto e a famosa síndrome agostina tomou conta de tudo. Tenho estado mais confusa que o normal. Com uma tpm que quase me mata. Por outro lado, vi que me fechei pro mundo inteiro. E dessa vez foi pra valer. Mas abri os olhos, consegui entender que EU não posso ser assim - apesar de ter me dado muito bem com esse lado. E desde o começo do capítulo anterior eu sabia que isso aconteceria. Sabia que surgiriam consequências, como sempre. (...)

Há um tempo atrás tive experiências um tanto diferentes (e quem diria que eu acharia isso). Diferentes no sentido "500 days of Summer", na parte de Realidade x Expectativas. E depois parei pra pensar que, talvez, o erro tenha sido meu. Ou melhor dizendo, não houve erro. Porque não houve tentativa. Não deixei brechas - apesar de ter pensado em deixa-las. Depois cheguei em casa, com a bolsa jogada no ombro, sentindo como se tivesse perdido uma guerra. Enquanto que nem a guerra chegou a existir. Entrei no elevador, fechei os olhos e só tive vontade de bater a cabeça na parede. Como eu pude ser tão estúpida? Coloquei meu pijama, escovei meus dentes, lavei meu rosto e me afoguei entre as aconchegantes cobertas da minha cama. Eu queria esquecer. Obviamente uma vontade leviana, se tratando de mim. Até o dia de hoje, ocasionalmente, tenho alguns sonhos. "Sonhos manipulados". De como poderia ter sido se eu tivesse dado brechas - se houvesse 15% à mais de coragem por parte alheia.
Em outros tempos, eu certamente já estaria suspirando pelos cantos. O bom de ter levado 'tapas na cara' é o prêmio: Ter menos apego para com as pessoas. Nada passou de um interesse. E que foi benéfico em diversos sentidos. Tais como voltar a sonhar - e lembrar dos sonhos. E também, como eu havia começado a escrever, abrir os olhos para quem eu estava me tornando. As pessoas frias se machucam menos, sem dúvidas. Mas não consigo ver uma gota de felicidade exalando delas. Sim, nos últimos tempos me machuquei mais do que deveria. Mas nesses últimos 7 meses que eu tenho ficado extremamente distante de tudo, sinto-me como um iceberg. Inanimado. Que não se comove com nada - nem com ninguém. Nunca me senti tão distante de tudo. Pessoas, objetivos, sonhos. E também nunca me vi tão impaciente. Quase com uma tpm constante. E se eu - que sou eu - não tenho me suportado desse jeito, não fico surpresa com o que as pessoas devem estar sentindo/pensando com relação a mim. Tenho ciência do meu 'descaso', até mesmo com os meus amigos mais próximos. E claramente isso não tem sido bom. Nesse ponto, olho para trás. E vejo que nada justifica essas atitudes recentes. Justamente com as pessoas que mais me deram força, sabe? Sempre dei valor as minhas (poucas) amizades. Gosto de solidão, mas tudo tem um limite. Não pretendo morrer sozinha numa casa, trancada com 17 gatos - risos.

Agora entra em ação o projeto 'Back to black' ou a 'Rehab' (Muitas homenagens a minha querida Amy, que virou a cantora preferida de metade de mundo. Por isso detesto que essas pessoas morram... os antigos admiradores ficam comparados aos novos que conhecem 2 músicas e dizem que a amam.). Voltar para as minhas origens. Ter simpatia, carinho, demonstrar importância, bom humor e etc. "Demolir a muralha". E manter somente uma singela cerca. Continuar com a evolução de não me aproximar de ninguém sem testes prévios, mas deixar os caminhos abertos. E presumo que a vida vá melhorando aos poucos. Que, principalmente, eu vá melhorando aos poucos. Assim dando início a mais um capítulo.

Tears For Fears @ The Working Hour.

(Just like) starting over.

Perguntaram a John Lennon:

- Por que você não pode ficar sozinho, sem a Yoko?

E ele respondeu:

- Eu posso, mas não quero. Não existe razão no mundo porque eu devesse ficar sem ela. Não existe nada mais importante do que o nosso relacionamento, nada. E nós curtimos estar juntos o tempo todo. Nós dois poderíamos sobreviver separados, mas pra quê? Eu não vou sacrificar o amor, o verdadeiro amor, por nenhuma piranha, nenhum amigo e nenhum negócio, porque no fim você acaba ficando sozinho à noite. Nenhum de nós quer isto, e não adianta encher a cama de transa, isso não funciona. Eu não quero ser um libertino. É como eu digo na música, eu já passei por tudo isso, e nada funciona melhor do que ter alguém que você ame te abraçando. "

Canela com café.

Entro na livraria, sinto o aroma altamente familiar de café. Peço meu cappuccino. A moça atrás do balcão escreve meu nome na comanda - e para a minha surpresa, o escreve corretamente. Hoje é uma típica terça-feira, com um sol vibrante pincelando o céu azul, sem nenhuma nuvem. Apesar dos recentes acontecimentos, acordei bem. Não lembro do que sonhei. Daqui a pouco terei que deixar o santuário dos livros - que acolhe-me tão bem - e seguir com o dia. Amanhã faltará uma semana para mais uma primavera. O relógio não pára. (...)

A música solta suas notas e tons no ar. Hoje ouvi alguém, com mais experiência que eu, aconselhando-me sabiamente a ficar longe de certas complicações. A criar uma 'blindagem' para permanecer fora disso. Também escutei que várias pessoas dirão inúmeras críticas. Dizendo que sou insensível, até mesmo indiferente. Sorri ironicamente e respondi 'Dirão?'. E recebi um riso de como quem acabou de compartilhar um segredo, seguido da pergunta retórica 'Já dizem, não é?'. E eu continuo atrás da minha blindagem. Continuo me escondendo. Continuo não escutando quase ninguém. Seja isso bom ou ruim.

U2 @ Sometimes You Can't Make It On Your Own.