Password C688.

Eu deveria dar mais ouvidos ao que Lisa me diz. Somente depois do que faço, e da chegada das consequências, é que percebo que as palavras nem sempre doces de Lisa faziam completo sentido. Hoje recebi uma carta de um fantasma de um passado distante. Percebi que em meio a expressões de opinião, aquela costumeira preocupação que já me é tão familiar não conseguiu ser camuflada. Comecei a lembrar de cartas antigas e emboloradas que estão numa caixa, no fundo de uma gaveta na cabeceira. De um passado mais distante e profundo ainda, repleto de ironias. Estranho é lembrar sem saudades. É a realidade. Somente fantasmas.

Os dias tem passado de forma ligeira - até demais. Agosto nos trás à tona um sentimento ainda mais intenso e vívido de nostalgia. Com certos momentos que até nos transportam para outro tempo - juntamente com outras pessoas. Aliás, ultimamente venho percebendo que Henry lentamente transforma-se em um fantasma. Mesmo de maneira hesitante, estou permitindo a sua partida. Para fora de mim, assim como deve ser. Tenho plena (cons)ciência de que, por mais inexorável que seja, é a decisão com maior grau de coerência que eu poderia ter em mãos. A vida ainda está longe de ser justa e/ou fácil. E, na realidade, creio que morrerei antes de proferir tal frase em sentido contrário. Mas ainda possuo fé suficiente para acreditar que alguns fatos podem - e vão - melhorar. Mesmo que a minha estúpida e obtusa mente só os perceba tempos depois. Afinal é o que acontece de maneira - quase - perpétua, não? Ouço meu telefone tocar na sala. Não preciso atendê-lo para saber quem chama, e para quê chama. Mas, desta vez, sequer atenderei. Não consigo aceitar mais convites para tomar um café - mesmo que este seja o meu preferido. Para quê? Para brincar com mais um humilde ser humano? Sim, eu deveria acreditar em Lisa quando ela diz "Annie, você não é mais dona do seu coração. Ele sequer reside dentro de si.". Não possuo mais o meu coração, mas também ninguém o tem. Estrelas. Somente as estrelas tem o devido direito sob o meu órgão vital pulsante. Apenas elas são previamente autorizadas a arrancar aquele brilho de meu olhar. Olhe para as estrelas, olhe como elas brilham para você...

Se a fé move montanhas, por que não corações?

Annie.


Dario Marianelli @ Your Hands Are Cold.

The fame monster.

Monstros. Quando crianças temos medo de deixar a porta do armário aberta, medo de pegar um copo d'água na geladeira durante a noite. Sempre nos disseram que haviam monstros em todos esses lugares. Conforme os anos passam, percebemos que na realidade os monstros existem também durante o dia. Que eles não são seres de outro planeta. Não. Estamos convivendo com os mesmos, sem perceber. Conforme nossa vida segue eles aparecem, revelam-se. Nunca sabemos onde, quando e nem porque aparecem. Mas uma hora nos deparamos com monstros.
A vida não está sendo fácil. Aquela costumeira calma que pairava aqui por perto foi brutalmente assassinada. E tudo muda com tanta rapidez... Já fazem 4 meses que consegui voltar para onde tanto queria. Eu já sabia possuía consciência de que não seria fácil, e que isso era um preço válido à se pagar. Mas, como de costume, nunca nos encontramos prontos para mudanças. Nunca. A ironia da vida continua a andar de mãos dadas comigo. Passarei a valorizá-la. Tentar provocar felicidade, para talvez poder senti-la depois.

A dança das folhas continua imparcialmente. E elas abandonam as árvores. E elas voam, conforme a vontade dos ventos. Sempre numa dança conjunta. Vital. E elas voam... Até repousarem. Não mortas. Com vida suficiente para serem delicadamente vermelhas, absurdamente magníficas. Colorindo paisagens. Fazendo viagens até lugares imaginários. E levantando vôo novamente, até acharem seu devido destino para o adorável descanso final. Folhas.


MGMT
@ The Youth.

Password C707.

Correndo. Todos os meus músculos se contraem a medida que continuo correndo. Minha respiração permanece ofegante. Chuva. A chuva só aumenta. Sinto meu corpo completamente enxarcado. Com meu jeans e minha blusa de alça quase acoplados em mim. Olho para o céu, está escurecendo. Preciso correr mais rápido. Já prevejo o discurso de Lisa quando me ver assim: 'Eu avisei para você ficar em casa, Annie. Disse-lhe que tudo estava - na verdade ainda está - contra você e essa tua petulância.'.
Fui petulante - e fraca - pelo que julgava ser um grande motivo. Estava completamente equivocada. Henry não é a mesma pessoa, não o conheço mais. Acho que nunca acreditei que alguém tão doce e gentil pudesse se transformar em um ser frio, inanimado e sem sentimentos. Sabes o que é pior? Por ter sido estúpida em supor que seria diferente, não terminei somente de perder razão de felicidade. Joguei fora aquele que começara a se tornar importante, George. Como sempre, Annie fere-se com o que não presta e machuca quem possuia devido valor real. Continuo correndo, mesmo tendo ciência de que já não adianta. E presumo que é melhor dessa forma. A tendência é sempre que as pessoas machuquem-se ao meu lado. Então que eu permaneça com minha solidão particular. Até aparecer alguém que me agrade, que venha correr ao meu lado na chuva. E que, provavelmente, desapareça após isso. Claro, meu interior espera que isso mude. Uma hora ou outra. Mas sei - apenas por saber - que outros Henry's e George's vão surgir do nada e mudar tudo. Prossigo, sem saber o que o futuro me reserva, mas sabendo que o meu café com gotas de menta estará me esperando na bancada da minha cozinha. E, desta vez, ainda quente.

Annie.

Soundgarden @ Black Hole Sun.

Another dance.

Escrever. Na verdade, digitar. Desde Abril não o faço... prefiro não lembrar do meu último post que escrevi aqui, nessa mesma cadeira, numa tarde nublada e fria. Apesar de um fato levar ao outro. É um ciclo... sempre voltamos ao mesmo ponto. Razão. Insanidade. A segunda palavra contém mais sentido, sim. Insanidade... Chega a ser uma auto-afirmação. Ou seria uma auto-definição? Não sei mais. Para dizer a verdade, não encontro nada que possua coerência para escrever. Afinal, como algo coerente pode sair de uma pessoa que não sabe agir de acordo com esse termo?

Os último tempos têm sido confusos. Frios. As lembranças (assim como eu previa antes de tudo isso) insistem em andarem mescladas comigo. Era isso que eu temia antes mesmo de acabar o que nem ao menos comecei. Voltar de um lugar - que só deveria me trazer felicidade - com a alma em pedaços. Sentir lágrimas atravessando o meu rosto pelo simples fato de um jorro de lembranças que invadem a mente, sem a minha permissão. Milhões de assuntos pendentes. Resolvo um, surgem 3. Quando chego ao final da lista de pendências... restam-me 2. Sendo que uma delas era uma ferida aberta. Daquelas que qualquer deslize provoca uma infecção. E existem vezes que de nada adianta um cuidado excepcional. Chegamos a pensar que já está tudo bem, que só existe uma cicatriz agora. Quanto engano... sinto-me cega. Só descobrimos que uma ferida permanece aberta quando tocamos nela, não importando o quão delicadamente seja. E pior que isso (saindo das metáforas), quando nos deparamos com estranhos. Completos estranhos. Acho que nunca entenderei as pessoas, a forma com que elas agem para com seus semelhantes. Como elas podem ter mais de uma personalidade. E isso chega a causar um sentimento, o qual não tem definição ou nome. Um misto de.. descaso com mentira. Essa palavra dói: Men-ti-ra. E me remete a outra ainda mais cruel. Ilusão. Sim, essa se encaixa com perfeição. Confesso que eu nunca esperaria receber palavras num tom frio, e até ríspido em certas frases. Não acreditei que era possível estar presenciando uma mudança tão drástica de alguém que já me foi tão doce e importante. Leio históricos que mais parecem livros. Não encontro uma explicação sequer. Sim, sei que devo aceitar as palavras de explicação que me foram concedidas. E também tenho ciência de que, no final, serão elas que irão afastar essa ilusão. Ou seria alusão?

De fato, nunca estaria preparada para o que eu forcei a acontecer essa semana. Mas não me arrependo. Como já me disseram anteriormente, certas coisas só são resolvidas quando acontece um choque de realidade. Uma bofetada da vida que te faz acordar de um sonho que virou pesadelo. E é isso que te faz prosseguir. Que lhe devolve aquela força que nenhum de nós sabe da onde surge. De nada adianta você ouvir trilhões de pessoas dizerem que o certo é deixar o passado no passado. VOCÊ terá que se dar conta disso sozinho. É de sua própria vontade escolher viver do passado ou buscar um novo futuro, por mais que seja inexoravelmente difícil. O que me preocupa atualmente não é mais isso... Mas sim a consequência que esse choque de realidade vai causar ainda mais. Não acho justo as pessoas que estão a minha volta pagarem pelas minhas decisões. Embora eu não veja outra solução, por hora. A frieza vai aumentar, a fortaleza que envolve meus sentimentos mais delicados e profundos há de se tornar algo ainda mais rígido e sólido. Preciso de um espaço seguro para poder reconstruir o que foi demolido de uma hora pra outra. O receio predominante é que, com cada um desses meus capítulos encerrados, a fé acabe deteriorando. E, consequentemente, vá perdendo pedacinhos da minha essência. Ainda tenho minhas esperanças, é claro. Mas não passam de algo remoto. Preciso de um tempo pra mim, sozinha. Não quero mais envolver ninguém nos meus problemas e dramas. Não acho justo. E sei que não é. E ao mesmo tempo sei que não é justo eu acabar me fechando de tal maneira absurda. Sei que é escolha minha. E sei que é extremamente provável que isso ocasione sérias consequências. Que desculpas não serão suficientes. Nunca são. Sinto-me num estado de sonambulismo constante. Vivendo e, ao mesmo tempo, não tendo consciência do/de que estou vivendo. Jogaram um copo de água fria em meu rosto, assim finalmente acordei. O choque vai passar. E a vida sempre continua... até a divina segunda ordem, ela continua.

Eu continuo.


Dario Marianelli @ Your Hands Are Cold

Password C683.

Surreal. Inexorável. Minha expressão não consegue omitir tamanha perplexidade que me foi causada com a chegada do correio matinal. Em plena - e ensolarada - terça-feira, meu - que nunca foi realmente meu - Henry decide por livre e espontânea vontade cumprir suas palavras de um passado que não nos pertence mais. "Mandar-te-ei uma carta, escrita à próprio punho, dando-lhe todas as explicações que vais cobrar um dia.". Passo meus dedos finos e longos pelo envelope, acariciando as marcas da tinta preta, desenhando delicadamente sua perfeita caligrafia. Olho através da cortina entreaberta o raio de sol que ilumina exatamente o lugar em que me encontro sentada, em meu sofá azul turqueza (...).

Um barulho irritantemente forte perfura meus pensamentos. Badaladas. 10 badaladas. Olho para baixo e deparo-me com as próprias mãos entrelaçadas ao vestido amarelo que coloquei assim que acordei. Devaneios. Sempre crueis, sempre pontuais. Meus olhos ardem. George me aguarda no café, há 6 minutos. Pego minhas chaves, tranco a porta, aciono o alarme. Aciono o alarme da minha mente instável, simultaneamente. Dirijo-me ao caminho oposto, e sinto George se afastando lentamente... sinto meu café com delicadas gotas de menta esfriando. Comigo, simultaneamente.

Annie.


Radiohead @ Last Flowers.

Last song.

Para uma avenca partindo.

Olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende? olha, falta muito pouco tempo, e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais, porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme dessas coisas, e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos, porque elas não foram existidas completamente, entende, porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver, não, não é isso que eu quero dizer, não existe uma dimensão permitida e uma outra proibida, indevassável, não me entenda mal, mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não sabe se terá coragem de viver, no mais fundo, eu quero dizer, é isso mesmo, você está acompanhando meu raciocínio? falava do mais fundo, desse que existe em você, em mim, em todos esses outros com suas malas, suas bolsas, suas maçãs, não, não sei porque todo mundo compra maçãs antes de viajar, nunca tinha pensado nisso, por favor, não me interrompa, realmente não sei, existem coisas que a gente ainda não pensou, que a gente talvez nunca pense, eu, por exemplo, nunca pensei que houvesse alguma coisa a dizer além de tudo o que já foi dito, ou melhor pensei sim, não, pensar propriamente dito não, mas eu sabia, é verdade que eu sabia, que havia uma outra coisa atrás e além das nossas mãos dadas, dos nossos corpos nus, eu dentro de você, e mesmo atrás dos silêncios, aqueles silêncios saciados, quando a gente descobria alguma coisa pequena para observar, um fio de luz coado pela janela, um latido de cão no meio da noite, você sabe que eu não falaria dessas coisas se não tivesse a certeza de que você sentia o mesmo que eu a respeito dos fios de luz, dos latidos de cães, é, eu não falaria, uma vez eu disse que a nossa diferença fundamental é que você era capaz apenas de viver as superfícies, enquanto eu era capaz de ir ao mais fundo, você riu porque eu dizia que não era cantando desvairadamente até ficar rouca que você ia conseguir saber alguma coisa a respeito de si própria, mas sabe, você tinha razão em rir daquele jeito porque eu também não tinha me dado conta de que enquanto ia dizendo aquelas coisas eu também cantava desvairadamente até ficar rouco, o que eu quero dizer é que nós dois cantamos desvairadamente até agora sem nos darmos contas, é por isso que estou tão rouco assim, não, não é dessa coisa de garganta que falo, é de uma outra de dentro, entende? por favor, não ria dessa maneira nem fique consultando o relógio o tempo todo, não é preciso, deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço, claro, claro que eu compro uma revista pra você, eu sei, é bom ler durante a viagem, embora eu prefira ficar olhando pela janela e pensando coisas, estas mesmas coisas que estou tentando dizer a você sem conseguir, por favor, me ajuda, senão vai ser muito tarde, daqui a pouco não vai mais ser possível, e se eu não disser tudo não poderei nem dizer e nem fazer mais nada, é preciso que a gente tente de todas as maneiras, é o que estou fazendo, sim, esta é minha última tentativa, olha, é bom você pegar sua passagem, porque você sempre perde tudo nessa sua bolsa, não sei como é que você consegue, é bom você ficar com ela na mão para evitar qualquer atraso, sim, é bom evitar os atrasos, mas agora escuta: eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tardes, ou manhãs, não importa a cor, é, a cor, o tempo é só uma questão de cor não é? por isso não importa, eu queria era te dizer dessas vezes em que eu te deixava e depois saía sozinho, pensando também nas coisas que eu não ia te dizer, porque existem coisas terríveis, eu me perguntava se você era capaz de ouvir, sim, era preciso estar disponível para ouvi-las, disponível em relação a quê? não sei, não me interrompa agora que estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender, melhor, claro que eu dou um cigarro pra você, não, ainda não, faltam uns cinco minutos, eu sei que não devia fumar tanto, é eu sei que os meus dentes estão ficando escuros, e essa tosse intolerável, você acha mesmo a minha tosse intolerável? eu estava dizendo, o que é mesmo que eu estava dizendo? ah, sabe, entre duas pessoas essas coisas sempre devem ser ditas, o fato de você achar minha tosse intolerável, por exemplo, eu poderia me aprofundar nisso e concluir que você não gosta de mim o suficiente, porque se você gostasse, gostaria também da minha tosse, dos meus dentes escuros, mas não aprofundando não concluo nada, fico só querendo te dizer de como eu te esperava quando a gente marcava qualquer coisa, de como eu olhava o relógio e andava de lá pra cá sem pensar definidamente e nada, mas não, não é isso, eu ainda queria chegar mais perto daquilo que está lá no centro e que um dia destes eu descobri existindo, porque eu nem supunha que existisse, acho que foi o fato de você partir que me fez descobrir tantas coisas, espera um pouco, eu vou te dizer de todas as coisas, é por isso que estou falando, fecha a revista, por favor, olha, se você não prestar muita atenção você não vai conseguir entender nada, sei, sei, eu também gosto muito do peter fonda, mas isso agora não tem nenhuma importância, é fundamental que você escute todas as palavras, todas, e não fique tentando descobrir sentidos ocultos por trás do que estou dizendo, sim, eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos para quem ouve, e depois, você sabe, eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem, está bem, eu espero aqui do lado da janela, é melhor mesmo você subir, continuamos conversando enquanto o ônibus não sai, espera, as maçãs ficam comigo, é muito importante, vou dizer tudo numa só frase, você vai ……… ………… …………. ………… ………. ……….. …………. ………… ………… ………… ……… ……….. ………… ………… sim, eu sei, eu vou escrever, não eu não vou escrever, mas é bom você botar um casaco, está esfriando tanto, depois, na estrada, olha, antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas, será que vai dar tempo? escuta, não fecha a janela, está tudo definido aqui dentro, é só uma coisa, espera um pouco mais, depois você arruma as malas e as botas, fica tranqüila, esse velho não vai incomodar você, olha, eu ainda não disse tudo, e a culpa é única e exclusivamente sua, por que você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca? eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer, olha, antes de você ir embora eu quero te dizer quê.

(Caio Fernando Abreu)

Password C651.

Sentada a janela, sinto os trilhos percorridos por este trem. Encosto meu rosto ao vidro gelado, que retrata a imensidão da neve lá fora. Ao fechar os olhos lembro-me de cada detalhe do rosto de Henry. O desenho de seus olhos, a expressão dos mesmos ao encontrarem os meus. As ruguinhas de expressão que formavam-se ao lado deles quando um sorriso era esboçado. O jeito deliberadamente singelo e carinhoso com que eu era observada. Sinto meu coração desmanchar-se inteiramente. Lembro como se estivesse ocorrendo nesse instante, a voz dele indagando-me: 'O que foi, Annie?'. Só pelo fato de meus olhos não conseguirem desvencilharem-se dos seus, por toda a minh'alma ficar paralisada no tempo só para poder continuar observando-o minuciosamente. E a minha pessoa responder-lhe que não era nada, enquanto o meu pensamento analisava a maré de sorte que estava em minhas mãos, ao alcance do meu olhar - e de minhas palavras. Abro meus olhos, encontro-me congelada junto ao vidro, não sozinha... George dorme profundamente em meu ombro. E mesmo não fazendo ideia se Henry sequer dará algum sinal de vida, um pedaço de minha melhor essência estará com ele, mesmo que guardado sem o seu consentimento. Não consigo odiá-lo, não consigo deixá-lo partir. Essa é uma inexorável contradição. Infelizmente, hoje, Henry não passa de uma memória. Que de tão imaculada me parece mais uma ilusão, um devaneio. Ou talvez um sonho. A mão de George repousa delicadamente sob a minha, isso é real. Não é perfeito, e nem de longe o que meu âmago desejaria, mas é o que ganhei em troca de tantas lágrimas. E espero ardentemente que, um dia, o pedaço que Henry deixou para traz comigo possa voltar para o seu devido lugar.

Don't worry...

Annie.


Coldplay @ Death And All His Friends